Seminário 13 - MÉTODOS DE PESQUISA COM O COTIDIANO
Autor: João Paulo Dias da Silva Munck
Docente: Dr. Luiz Alex Silva Saraiva
Disciplina: Métodos Qualitativos II
RESUMO:
Fala pessoal, no post de hoje, iremos explorar um pouco mais sobre os métodos de pesquisa com o cotidiano na área Métodos Qualitativos. Então, venha comigo compreender como esse método pode mudar a realidade de muitas pesquisas.
COTIDIANO EM FOCO: MÉTODOS DE PESQUISA NA PRÁTICA:
Na prática de pesquisa com o cotidiano, vemos pensadores como Lefebvre, Heller e Certeau, cujas contribuições nos permitem explorar as nuances nesta abordagem. Esses teóricos nos ajudam a entender como o cotidiano rompe com estruturas rígidas e desafiadoras, muitas vezes sustentadas por discursos hegemônicos, revelando uma flutuação entre o macro e o micro nas práticas sociais diárias.
O cotidiano não é apenas uma coleção de atividades diárias, mas um campo dinâmico que conecta o passado, o presente e o futuro, revelando as relações históricas que moldam nossa existência. Dentro desse contexto, a pesquisa sobre o cotidiano demanda uma atenção aos imperativos epistemológicos, reconhecendo que todos nós somos produtos de um tempo histórico específico. O papel do agente, ou seja, do indivíduo cujas práticas diárias são objeto de estudo, é crucial para entender as relações profundas que estruturam grupos e comunidades.
Esse cotidiano pode ser investigado até mesmo em contextos organizacionais, abrangendo não apenas empresas tradicionais, mas também ONGs e outros grupos que se reúnem em torno de causas comuns. Um exemplo é o estudo sobre o dia a dia das enfermeiras, que destaca como diferentes organizações podem ser palco de transformações sociais significativas. Nas cidades, esse palco se expande, refletindo as mudanças e tensões que atravessam a vida urbana.
Podemos considerar, por exemplo, uma pesquisa de mestrado em que o pesquisador se inseriu no cotidiano de motoristas de aplicativo, observando suas rotinas e adotando um recorte específico para compreender suas realidades. Esse tipo de prática não se limita a grupos marginais ou pequenos grupos; ela pode ser aplicada a diferentes contextos e recortes sociais.
Como pesquisadores, precisamos entender nossa agenda, especialmente ao lidar com grupos minoritários, que muitas vezes estão mais visíveis. Essa visibilidade nos permite conectar essas experiências com políticas mais amplas. Lefebvre, embora denso e complexo, nos oferece uma perspectiva crítica sobre como a vida cotidiana é regulada pelo Estado capitalista, através de leis, aparelhos de justiça e técnicas publicitárias que moldam nossa realidade, desde as tarefas mais simples, como limpar e cozinhar, até os sonhos e fantasias que atravessam nossa subjetividade.
Lefebvre também critica as técnicas publicitárias promovidas pela elite, que criam padrões de consumo e comportamento, como vemos em exemplos de grandes empresas de mídia que influenciam o cotidiano através de modas e tendências. A ideia de uma "família tradicional" como modelo de sucesso, por exemplo, é uma construção vendida pela direita como parte dessa manipulação do cotidiano.
Os influencers também desempenham um papel nessa dinâmica, mostrando uma realidade idealizada que se torna um padrão a ser seguido. Lefebvre propõe uma tríade dialética para entender essa busca pela realidade: a ideia de totalidade, que integra os diferentes aspectos da vida social; e a possibilidade de relações sociais de dominação e poder, que estruturam nossas vidas cotidianas.
Para Heller, o cotidiano é um conjunto de atividades que refletem a produção social. O indivíduo se reproduz diariamente, tanto como ser individual quanto dentro do contexto social mais amplo. A pandemia de Covid-19 exemplifica esse processo, reforçando a ideia de Heller sobre o papel do corpo social e a autocompreensão como participante dessa dinâmica.
O cotidiano, então, pode ser visto como um campo de batalha, onde constantes transformações ocorrem. Lugares simbólicos emergem dentro desse cotidiano, e as táticas dependem do contexto, exigindo tempo para se transformarem em práticas sociais consolidadas.
Lefebvre e Heller dialogam, de certa forma, com ideias marxistas, oferecendo uma análise materialista da vida cotidiana, que vai além de simplesmente perguntar a rotina dos trabalhadores, evitando a armadilha da alienação. Para tanto, é necessário um marco teórico bem definido, que nos permita superar as limitações das abordagens modernistas (como o funcionalismo e o positivismo) e adotar uma análise mais profunda e madura da realidade.
Para abarcar a complexidade do cotidiano, precisamos superar os processos dualistas do nosso dia a dia e aprender a lidar com a multiplicidade dos saberes. A pesquisa com o cotidiano nos desafia a integrar essas múltiplas formas de conhecimento, superando as restrições impostas pelo pensamento moderno e abrindo caminho para uma compreensão mais rica e completa da vida social.
Assim, fecho esse blog dizendo que dentro da construção da minha tese, esse assunto contribui dentro dos objetos dentro do meu estudo nos seguintes pontos:
1. Compreensão das Dinâmicas Cotidianas;
2. Análise Crítica das Estruturas Sociais;
3. Integração de Abordagens Históricas e Temporais;
4. Valorização da Subjetividade;
5. Contribuição para o Campo Epistemológico.
REFERÊNCIAS:
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